sábado, 8 de fevereiro de 2014

HISTÓRIAS DE JOÃO DINO – MONSTRO NO CÉU

HISTÓRIAS DE JOÃO DINO – MONSTRO NO CÉU
Há um mês todas as nossas atenções estão voltadas para o céu. Amanhece, anoitece, as nuvens chegam a ficarem escuras, mais chuva, que é bom, e que nós estamos precisando muito, quase nada.
As prolongadas estiagens do nordeste brasileiro já foram documentadas em livros, revistas, cordéis, nas telas do cinema em centenas de versões etc.
Mas só quem sofreu na pele, como diz o nosso saudoso poeta Patativa do Assaré, os dramas de uma grande seca no nordeste, pode relatar o sofrimento dos nossos irmãos.
Ao longo dos meus 58 anos de idade, o período de maior estiagem que eu tenho lembrança, aconteceu durante o período de 1978 a 1982... Foram cinco anos ininterruptos de seca no Ceará. Até o grande açude de Orós, com capacidade para acumular 2,5 bilhões de metros cúbicos de água, ficou no limite mínimo.
Eu, e minha família, não sofremos diretamente as consequências da seca, porque eu já era o contabilista da Cooperativa dos Irrigantes do Perímetro Icó-Lima Campos, e em seguida passei no concurso e fui para o Banco do Brasil. Mas as imagens da devastação e do terror da seca a gente nunca esquece. Eu presenciei o sofrimento de muita gente.
Pois foi justamente nesse período que eu resolvi me casar. Minha 1ª filha, Giuliane, nasceu no dia 10.07.1977, Gillyerme em 20.04.1979, Netinho em 26.05.1980 e Gislânia em 02.06.1982.
Eu estou descrevendo essas datas para esclarecer que essas crianças, até dezembro de 1982, nunca tinham visto uma chuva.
Aquelas tradicionais brincadeiras infantis do nosso tempo, de tomar banho, de fazer barquinhos utilizando cascas de melancias e papéis, e depois soltar nas ruas alagadas pelas águas das chuvas, essas crianças não tinham qualquer intimidade com isso.
Quando eu consegui transferência para a Agência do Banco do Brasil de Antenor Navarro (PB), atualmente São João do Rio do Peixe, a casa que eu morava ficava na Praça da Matriz, a 50 metros do banco.
Nem televisão as crianças assistiam porque o sinal era tão ruim que não dava para entender nada. Por isso, o divertimento maior era correr, andar de velocípede e de bicicleta na praça.
Normalmente, quando eu saia do banco, vestia uma bermuda e ficava brincando com elas na Praça da Matriz, até anoitecer e chegar o sono. Era esse o nosso lazer em Antenor Navarro. Meus amigos, numa tarde de dezembro de 1982, atendendo as milhares de preces dos agricultores, rezas dos videntes, sequestros das imagens de São José das Igrejas para forçar a vinda do inverno e todas as simpatias da nossa cultura popular, por volta das 17 horas, as nuvens ficaram da cor de chumbo. O dia virou noite. Como normalmente acontece naquela região do Alto Piranhas da Paraíba, as primeiras chuvas da quadra invernosa são anunciadas por trovões que assustam até as pessoas adultas e idosas.
Enquanto isso, extravasando a ansiedade, a felicidade, a alegria, as pessoas gritam com toda força dos pulmões: Chegou a chuva... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... Eu sabia que São José não iria nos faltar nessas horas tão difíceis...
E meus filhos, de 6, 4 e 2 aninhos, que brincavam na Praça da Matriz correndo de bicicleta e empurrando o “andador de bebê” da pequenina Gislância de 7 meses, quando viram aquele cenário de relâmpagos rasgando as nuvens com intensas luzes incandescentes, seguidos por estrondos que mais pareciam pedreiras se desmoronando no rumo daquela praça, essas crianças se desesperaram, se dispersaram, e correndo em direções opostas, aos berros, em pânico, dava apena de se ver.
Curicaca, o vigilante do banco, adentrou a agência ofegante, e gritou: João Dino, corre ali, que o teu menino mais velho desceu no rumo do Rio Piranhas, e a menina desembestou no rumo da Rua da Lama. Os dois pequenos estão se acabando de chorar ali perto da coluna da hora, morrendo de medo da chuva.
Pense no sacrifício prá juntar essas crianças. Todos chorando inconsolavelmente, e naquela agonia gritavam e apontavam para as nuvens.
Eu ainda me lembro. Essas imagens ficaram gravadas na minha mente... Giuliane, na época com 6 anos, em tempo de botar o coração pela boca, enquanto chorava, dizia: Painho, é um monstro que cospe fogo.
Foi a primeira vez na vida que eles ouviram trovões, viram relâmpagos e tomaram banho de chuva. 
Nesse dia chovei mais de 100 mm naquela região. E todos nós só fomos dormir quando a chuva parou, de madrugada.
O trauma foi tão grande para aquelas crianças, que nunca mais elas quiseram brincar na Praça da Matriz.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

HISTÓRIAS DE JOÃO DINO - MONSTRO NO CÉU

HISTÓRIAS DE JOÃO DINO – MONSTRO NO CÉU
Há um mês todas as nossas atenções estão voltadas para o céu. Amanhece, anoitece, as nuvens chegam a ficarem escuras, mais chuva, que é bom, e que nós estamos precisando muito, quase nada.
As prolongadas estiagens do nordeste brasileiro já foram documentadas em livros, revistas, cordéis, nas telas do cinema em centenas de versões etc.
Mas só quem sofreu na pele, como diz o nosso saudoso poeta Patativa do Assaré, os dramas de uma grande seca no nordeste, pode relatar o sofrimento dos nossos irmãos.
Ao longo dos meus 58 anos de idade, o período de maior estiagem que eu tenho lembrança, aconteceu durante o período de 1978 a 1982... Foram cinco anos ininterruptos de seca no Ceará. Até o grande açude de Orós, com capacidade para acumular 2,5 bilhões de metros cúbicos de água, ficou no limite mínimo.
Eu, e minha família, não sofremos diretamente as consequências da seca, porque eu já era o contabilista da Cooperativa dos Irrigantes do Perímetro Icó-Lima Campos, e em seguida passei no concurso e fui para o Banco do Brasil. Mas as imagens da devastação e do terror da seca a gente nunca esquece. Eu presenciei o sofrimento de muita gente.
Pois foi justamente nesse período que eu resolvi me casar. Minha 1ª filha, Giuliane, nasceu no dia 10.07.1977, Gillyerme em 20.04.1979, Netinho em 26.05.1980 e Gislânia em 02.06.1982.
Eu estou descrevendo essas datas para esclarecer que essas crianças, até dezembro de 1982, nunca tinham visto uma chuva.
Aquelas tradicionais brincadeiras infantis do nosso tempo, de tomar banho, de fazer barquinhos utilizando cascas de melancias e papéis, e depois soltar nas ruas alagadas pelas águas das chuvas, essas crianças não tinham qualquer intimidade com isso.
Quando eu consegui transferência para a Agência do Banco do Brasil de Antenor Navarro (PB), atualmente São João do Rio do Peixe, a casa que eu morava ficava na Praça da Matriz, a 50 metros do banco.
Nem televisão as crianças assistiam porque o sinal era tão ruim que não dava para entender nada. Por isso, o divertimento maior era correr, andar de velocípede e de bicicleta na praça.
Normalmente, quando eu saia do banco, vestia uma bermuda e ficava brincando com elas na Praça da Matriz, até anoitecer e chegar o sono. Era esse o nosso lazer em Antenor Navarro. Meus amigos, numa tarde de dezembro de 1982, atendendo as milhares de preces dos agricultores, rezas dos videntes, sequestros das imagens de São José das Igrejas para forçar a vinda do inverno e todas as simpatias da nossa cultura popular, por volta das 17 horas, as nuvens ficaram da cor de chumbo. O dia virou noite. Como normalmente acontece naquela região do Alto Piranhas da Paraíba, as primeiras chuvas da quadra invernosa são anunciadas por trovões que assustam até as pessoas adultas e idosas.
Enquanto isso, extravasando a ansiedade, a felicidade, a alegria, as pessoas gritam com toda força dos pulmões: Chegou a chuva... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... Eu sabia que São José não iria nos faltar nessas horas tão difíceis...
E meus filhos, de 6, 4 e 2 aninhos, que brincavam na Praça da Matriz correndo de bicicleta e empurrando o “andador de bebê” da pequenina Gislância de 7 meses, quando viram aquele cenário de relâmpagos rasgando as nuvens com intensas luzes incandescentes, seguidos por estrondos que mais pareciam pedreiras se desmoronando no rumo daquela praça, essas crianças se desesperaram, se dispersaram, e correndo em direções opostas, aos berros, em pânico, dava apena de se ver.
Curicaca, o vigilante do banco, adentrou a agência ofegante, e gritou: João Dino, corre ali, que o teu menino mais velho desceu no rumo do Rio Piranhas, e a menina desembestou no rumo da Rua da Lama. Os dois pequenos estão se acabando de chorar ali perto da coluna da hora, morrendo de medo da chuva.
Pense no sacrifício prá juntar essas crianças. Todos chorando inconsolavelmente, e naquela agonia gritavam e apontavam para as nuvens.
Eu ainda me lembro. Essas imagens ficaram gravadas na minha mente... Giuliane, na época com 6 anos, em tempo de botar o coração pela boca, enquanto chorava, dizia: Painho, é um monstro que cospe fogo.
Foi a primeira vez na vida que eles ouviram trovões, viram relâmpagos e tomaram banho de chuva. 
Nesse dia chovei mais de 100 mm naquela região. E todos nós só fomos dormir quando a chuva parou, de madrugada.
O trauma foi tão grande para aquelas crianças, que nunca mais elas quiseram brincar na Praça da Matriz.


HISTÓRIAS DE JOÃO DINO - MONSTRO NO CÉU

HISTÓRIAS DE JOÃO DINO – MONSTRO NO CÉU
Há um mês todas as nossas atenções estão voltadas para o céu. Amanhece, anoitece, as nuvens chegam a ficarem escuras, mais chuva, que é bom, e que nós estamos precisando muito, quase nada.
As prolongadas estiagens do nordeste brasileiro já foram documentadas em livros, revistas, cordéis, nas telas do cinema em centenas de versões etc.
Mas só quem sofreu na pele, como diz o nosso saudoso poeta Patativa do Assaré, os dramas de uma grande seca no nordeste, pode relatar o sofrimento dos nossos irmãos.
Ao longo dos meus 58 anos de idade, o período de maior estiagem que eu tenho lembrança, aconteceu durante o período de 1978 a 1982... Foram cinco anos ininterruptos de seca no Ceará. Até o grande açude de Orós, com capacidade para acumular 2,5 bilhões de metros cúbicos de água, ficou no limite mínimo.
Eu, e minha família, não sofremos diretamente as consequências da seca, porque eu já era o contabilista da Cooperativa dos Irrigantes do Perímetro Icó-Lima Campos, e em seguida passei no concurso e fui para o Banco do Brasil. Mas as imagens da devastação e do terror da seca a gente nunca esquece. Eu presenciei o sofrimento de muita gente.
Pois foi justamente nesse período que eu resolvi me casar. Minha 1ª filha, Giuliane, nasceu no dia 10.07.1977, Gillyerme em 20.04.1979, Netinho em 26.05.1980 e Gislânia em 02.06.1982.
Eu estou descrevendo essas datas para esclarecer que essas crianças, até dezembro de 1982, nunca tinham visto uma chuva.
Aquelas tradicionais brincadeiras infantis do nosso tempo, de tomar banho, de fazer barquinhos utilizando cascas de melancias e papéis, e depois soltar nas ruas alagadas pelas águas das chuvas, essas crianças não tinham qualquer intimidade com isso.
Quando eu consegui transferência para a Agência do Banco do Brasil de Antenor Navarro (PB), atualmente São João do Rio do Peixe, a casa que eu morava ficava na Praça da Matriz, a 50 metros do banco.
Nem televisão as crianças assistiam porque o sinal era tão ruim que não dava para entender nada. Por isso, o divertimento maior era correr, andar de velocípede e de bicicleta na praça.
Normalmente, quando eu saia do banco, vestia uma bermuda e ficava brincando com elas na Praça da Matriz, até anoitecer e chegar o sono. Era esse o nosso lazer em Antenor Navarro. Meus amigos, numa tarde de dezembro de 1982, atendendo as milhares de preces dos agricultores, rezas dos videntes, sequestros das imagens de São José das Igrejas para forçar a vinda do inverno e todas as simpatias da nossa cultura popular, por volta das 17 horas, as nuvens ficaram da cor de chumbo. O dia virou noite. Como normalmente acontece naquela região do Alto Piranhas da Paraíba, as primeiras chuvas da quadra invernosa são anunciadas por trovões que assustam até as pessoas adultas e idosas.
Enquanto isso, extravasando a ansiedade, a felicidade, a alegria, as pessoas gritam com toda força dos pulmões: Chegou a chuva... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... Eu sabia que São José não iria nos faltar nessas horas tão difíceis...
E meus filhos, de 6, 4 e 2 aninhos, que brincavam na Praça da Matriz correndo de bicicleta e empurrando o “andador de bebê” da pequenina Gislância de 7 meses, quando viram aquele cenário de relâmpagos rasgando as nuvens com intensas luzes incandescentes, seguidos por estrondos que mais pareciam pedreiras se desmoronando no rumo daquela praça, essas crianças se desesperaram, se dispersaram, e correndo em direções opostas, aos berros, em pânico, dava apena de se ver.
Curicaca, o vigilante do banco, adentrou a agência ofegante, e gritou: João Dino, corre ali, que o teu menino mais velho desceu no rumo do Rio Piranhas, e a menina desembestou no rumo da Rua da Lama. Os dois pequenos estão se acabando de chorar ali perto da coluna da hora, morrendo de medo da chuva.
Pense no sacrifício prá juntar essas crianças. Todos chorando inconsolavelmente, e naquela agonia gritavam e apontavam para as nuvens.
Eu ainda me lembro. Essas imagens ficaram gravadas na minha mente... Giuliane, na época com 6 anos, em tempo de botar o coração pela boca, enquanto chorava, dizia: Painho, é um monstro que cospe fogo.
Foi a primeira vez na vida que eles ouviram trovões, viram relâmpagos e tomaram banho de chuva. 
Nesse dia chovei mais de 100 mm naquela região. E todos nós só fomos dormir quando a chuva parou, de madrugada.
O trauma foi tão grande para aquelas crianças, que nunca mais elas quiseram brincar na Praça da Matriz.