HISTÓRIAS DE JOÃO DINO – MONSTRO NO
CÉU
Há um mês todas as nossas atenções
estão voltadas para o céu. Amanhece, anoitece, as nuvens chegam a ficarem escuras,
mais chuva, que é bom, e que nós estamos precisando muito, quase nada.
As prolongadas estiagens do nordeste
brasileiro já foram documentadas em livros, revistas, cordéis, nas telas do
cinema em centenas de versões etc.
Mas só quem sofreu na pele, como diz
o nosso saudoso poeta Patativa do Assaré, os dramas de uma grande seca no
nordeste, pode relatar o sofrimento dos nossos irmãos.
Ao longo dos meus 58 anos de idade, o
período de maior estiagem que eu tenho lembrança, aconteceu durante o período
de 1978 a 1982... Foram cinco anos ininterruptos de seca no Ceará. Até o grande
açude de Orós, com capacidade para acumular 2,5 bilhões de metros cúbicos de
água, ficou no limite mínimo.
Eu, e minha família, não sofremos diretamente
as consequências da seca, porque eu já era o contabilista da Cooperativa dos
Irrigantes do Perímetro Icó-Lima Campos, e em seguida passei no concurso e fui
para o Banco do Brasil. Mas as imagens da devastação e do terror da seca a
gente nunca esquece. Eu presenciei o sofrimento de muita gente.
Pois foi justamente nesse período que
eu resolvi me casar. Minha 1ª filha, Giuliane, nasceu no dia 10.07.1977,
Gillyerme em 20.04.1979, Netinho em 26.05.1980 e Gislânia em 02.06.1982.
Eu estou descrevendo essas datas para
esclarecer que essas crianças, até dezembro de 1982, nunca tinham visto uma
chuva.
Aquelas tradicionais brincadeiras
infantis do nosso tempo, de tomar banho, de fazer barquinhos utilizando cascas
de melancias e papéis, e depois soltar nas ruas alagadas pelas águas das chuvas,
essas crianças não tinham qualquer intimidade com isso.
Quando eu consegui transferência para
a Agência do Banco do Brasil de Antenor Navarro (PB), atualmente São João do
Rio do Peixe, a casa que eu morava ficava na Praça da Matriz, a 50 metros do
banco.
Nem televisão as crianças assistiam
porque o sinal era tão ruim que não dava para entender nada. Por isso, o
divertimento maior era correr, andar de velocípede e de bicicleta na praça.
Normalmente, quando eu saia do banco,
vestia uma bermuda e ficava brincando com elas na Praça da Matriz, até
anoitecer e chegar o sono. Era esse o nosso lazer em Antenor Navarro. Meus
amigos, numa tarde de dezembro de 1982, atendendo as milhares de preces dos
agricultores, rezas dos videntes, sequestros das imagens de São José das
Igrejas para forçar a vinda do inverno e todas as simpatias da nossa cultura
popular, por volta das 17 horas, as nuvens ficaram da cor de chumbo. O dia
virou noite. Como normalmente acontece naquela região do Alto Piranhas da
Paraíba, as primeiras chuvas da quadra invernosa são anunciadas por trovões que
assustam até as pessoas adultas e idosas.
Enquanto isso, extravasando a
ansiedade, a felicidade, a alegria, as pessoas gritam com toda força dos
pulmões: Chegou a chuva... Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... Eu sabia
que São José não iria nos faltar nessas horas tão difíceis...
E meus filhos, de 6, 4 e 2 aninhos, que
brincavam na Praça da Matriz correndo de bicicleta e empurrando o “andador de
bebê” da pequenina Gislância de 7 meses, quando viram aquele cenário de
relâmpagos rasgando as nuvens com intensas luzes incandescentes, seguidos por estrondos
que mais pareciam pedreiras se desmoronando no rumo daquela praça, essas
crianças se desesperaram, se dispersaram, e correndo em direções opostas, aos
berros, em pânico, dava apena de se ver.
Curicaca, o vigilante do banco,
adentrou a agência ofegante, e gritou: João Dino, corre ali, que o teu menino
mais velho desceu no rumo do Rio Piranhas, e a menina desembestou no rumo da Rua
da Lama. Os dois pequenos estão se acabando de chorar ali perto da coluna da
hora, morrendo de medo da chuva.
Pense no sacrifício prá juntar essas
crianças. Todos chorando inconsolavelmente, e naquela agonia gritavam e apontavam
para as nuvens.
Eu ainda me lembro. Essas imagens ficaram
gravadas na minha mente... Giuliane, na época com 6 anos, em tempo de botar o
coração pela boca, enquanto chorava, dizia: Painho, é um monstro que cospe
fogo.
Foi a primeira vez na vida que eles ouviram
trovões, viram relâmpagos e tomaram banho de chuva.
Nesse dia chovei mais de 100 mm
naquela região. E todos nós só fomos dormir quando a chuva parou, de madrugada.
O trauma foi tão grande para aquelas
crianças, que nunca mais elas quiseram brincar na Praça da Matriz.


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